30/07/2010 - 08:14
"Trânsito deveria ser ensinado na escola, na universidade", afirma especialista
Ao revelar que o excesso de velocidade é a infração número 1 entre as mulheres, um levantamento do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) publicado ontem em Zero Hora levantou a questão: o que pode ser feito para evitar que as condutoras sigam o mesmo caminho dos homens, e exagerem na hora de pisar no acelerador?
Para Eduardo Cortez Balreira, consultor do Sindicato do Centros de Formação de Condutores (CFCs) do Estado, é preciso mudar a legislação que regula o processo de aprendizado. Ele também defende a inserção de disciplinas de trânsito no currículo de escolas e de universidades. O levantamento apontou que, entre janeiro e junho, as mulheres receberam 9,6 mil multas por excesso de velocidade. Abaixo, a entrevista:
Zero Hora – O excesso de velocidade como infração número 1 entre as mulheres chamou a atenção do senhor?
Eduardo Cortez Balreira – Sim. Eu penso que é um fenômeno que está as nossas vistas. As pesquisas estão demonstrando isso. Realmente é uma nova situação que deve ser encarada de frente. E é passível até de mudança nos processos de educação dentro dos centros de formação de condutores.
ZH – Durante as aulas práticas, as mulheres já manifestam o interesse pela velocidade? Ou é um comportamento que só se revela após a conquista da habilitação?
Balreira – Essa foi uma pergunta que me fiz ontem (quarta-feira) após ser consultado pela Zero Hora. E eu fui sondar em alguns CFCs. Mas, realmente, nos centros, na fase inicial de aprendizagem, não se nota essa peculiaridade. Creio que são vícios adquiridos logo após elas terem o domínio individual do veículo.
ZH – É assim também nos casos dos homens? Ou eles já querem aprender como acelerar mais?
Balreira – Sim. Não se nota essa peculiaridade. Mas eu acho que tem um justificativa: na aprendizagem, eles estão ao lado de um instrutor que não deixa que se cometa nenhuma infração ou nenhum gesto audacioso.
ZH – E por que homens e mulheres pisam fundo depois de habilitados?
Balreira – A cultura de trânsito é ensinada apenas nos CFCs, em 40 horas/aula. É muito pouco na vida do cidadão. A cultura de trânsito deveria ser ensinada na escola, na universidade. E deixa eu te dizer mais: todo o processo de aprendizagem dos CFCs está engessado em legislação que vem de 1999. O conteúdo curricular não se alterou durante o tempo. E precisa ser aprimorado, melhorado, modernizado.
ZH – Isso pesa muito na formação do condutor?
Balreira – Sim. Temos uma formação acadêmica. Isso é muito pouco.
ZH – Os homens ainda acumulam 66 mil multas por conduzirem veículos adulterados por modificações proibidas ou por problemas em itens de segurança, identificação e até de documentação (mais de 14 mil multas são por questões de licenciamento). Por que isso acontece?
Balreira – Esse é um dos fenômenos comportamentais que precisaria ser estudado mais à luz da psicologia. Eu hoje li um artigo de um sociólogo que diz que o primeiro brinquedo que o garoto ganha é um carro, e ele leva isso para a vida inteira. Quando ele toma posse de um veículo, ele se sente com um poder extraordinário. Isso o leva a enfeitar veículos ou não cuidar dele como deve. E ele está acima da lei para decidir isso. Mas, isoladamente, o excesso de velocidade ainda é a maior infração aqui e em todo o Brasil.
Fonte: ZERO HORA